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“Cabular” o aquecimento não é uma boa ideia

mulher se aquendo antes da prática de esportes - foto criada por cookie_studio / Freepik

O aquecimento aciona os mecanismos neurológicos que reorganizam seu organismo para receber o exercício.

O aquecimento faz parte da composição de um treinamento eficiente que muita gente fica tentada a pular – e acaba pulando. A desculpa é sempre a mesma. “Tenho pouco tempo para treinar!” “É perda de tempo!”. No entanto, o aquecimento ajuda a preparar o corpo para o bom desempenho orgânico na atividade física e ajuda a reduzir o risco de lesões. 

O motivo

Sob o aspecto metabólico, ao iniciar a prática de um exercício ou de uma atividade esportiva, pode-se dizer que o corpo passa de um estado de repouso para um estado que requer maior demanda de energia. Para que haja uma transição saudável entre essas duas fases é imprescindível que o sistema músculo esquelético tenha condições metabólicas para reagir com eficiência a demanda energética exigida por uma atividade específica. O aquecimento promove de forma real o preparo do organismo para a demanda energética que será exigida para um bom desempenho físico e energético.

Sob o aspecto do controle motor, o aquecimento confere uma “recalibragem” do nosso sistema sensório motor para que possamos receber a atividade de forma mais organizada e ainda, prepara as vias neurais para funcionarem de maneira apropriada frente a ameaças a estabilidade e a orientação postural.

Sob o aspecto biomecânico, o aquecimento pode funcionar como uma estabilização prévia a execução de uma atividade. Pode conter ajustes individuais necessários e exercícios específicos para “encaixar” o indivíduo para a prática esportiva de forma eficiente a prevenir lesões.

Assim, o aquecimento prepara nosso sistema como um todo para receber o exercício. 

No caso dos exercícios aeróbicos, um dos objetivos do aquecimento é, portanto, antecipar a elevação do metabolismo aeróbico e diminuir o débito de oxigênio.

O início súbito do exercício físico prejudica a eficiência de respiração celular e ocasiona desconfortos musculares e, por vezes, fadiga cardiovascular. O aquecimento incrementa a vascularização tecidual e prepara o sistema cardiovascular para a demanda selecionada. Assim, reduz a percepção do esforço físico por modular as vias metabólicas previamente a execução da atividade.

Performance

Uma revisão de estudos sobre o tema publicada em 2010 apontou que o aquecimento proporciona melhora na performance do praticante do exercício e que favorece ganhos importantes para o organismo. Um outro estudo, publicado em 2015 na National Library of Medicine, dos Estados Unidos concluiu que foram encontradas fortes evidências de que o aquecimento ativo e dinâmico de alta carga aumenta o desempenho de potência e força.

O aquecimento pode ser passivo ou ativo.

O passivo, inclui fontes de calor externas como duchas quentes, fricção e massagem.

O aquecimento ativo pode consistir de exercícios específicos ou de movimentos de baixa intensidade que elevam a temperatura corporal, promovem aumento na vascularização e por conseguinte aquecimento dos tecidos e incremento das funções fisiológicas. Podemos configurar exercícios de estabilização dentro dessa categoria.

Muitos atletas por facilidade optam em executar como aquecimento o início lento e gradual da atividade em questão. No entanto, deve-se ter em mente que quanto maior a especificidade individual do aquecimento em respostas às necessidades orgânicas específicas para a demanda de uma atividade, melhor o desempenho esportivo e mais eficiente será o aquecimento. Isto é, se um atleta é corredor e ele fizer como aquecimento alguns exercícios específicos de correção postural juntamente com movimentos específicos da corrida, seu aquecimento será mais eficiente para a prevenção de lesões e para o melhor desempenho na corrida.

Os exercícios de aquecimento corretivos específicos por acionarem as vias de memória motora realizam uma recalibragem do sistema sensório motor, melhorando a coordenação motora, a performance do atleta e reduzindo o risco de lesões.

Os ganhos

O aquecimento proporciona:

Aumento do fluxo sanguíneo e oferta de oxigênio. O aumento no fluxo sanguíneo ajuda os músculos a obterem a nutrição de que precisam antes de iniciar um trabalho mais intenso.

Mais mobilidade. Ao preparar o sistema músculo esquelético a uma demanda específica, estimula-se a correta execução dos movimentos nas articulações exigidas na atividade em questão, assim, conquista-se maior controle motor e, portanto, maior mobilidade articular.

Menor risco de lesões. Ao aumentar a vascularização tecidual, incrementa-se as respostas metabólicas e portanto, aumenta-se a capacidade orgânica de resposta frente a agentes desestabilizadores.

Aumento de performance. Estudos mostram que o aquecimento aumenta a eficiência no treinamento físico.

Menos tensão muscular e dor. Aquecimento muscular promove a reorganização da musculatura tônica do corpo. O aquecimento por promover uma maior vascularização, facilita o recrutamento da musculatura profunda (tônica) que necessita maior suprimento de oxigênio. Assim, facilita a harmonização no recrutamento da musculatura e equilíbrio no dispêndio energético. Muito das tensões musculares decorrem de acionamentos musculares indevidos.

Aquecimento e alongamento: alongamento ativo em detrimento do passivo

Dentre a variada gama de exercícios que contribuem para o aquecimento, podemos encontrar o alongamento. Contudo, o que aparentemente parece ser um procedimento muito simples, na verdade envolve um mecanismo extremamente complexo de regulação periférica do movimento. Ao alongarmos um músculo, estaremos interferindo com a circuitaria do reflexo miotático, que tem como função primária, entre outras, a proteção do organismo. Os mecanismos de controle da motricidade nos ensina que a morfologia e fisiologia deste arco reflexo constitui a via final comum para as informações eferentes segmentares ou suprasegmentares, que em última análise produzem a expressão motora dos comportamentos, quer de caráter postural ou dinâmico.

Assim, o ato de alongar exige especificidade e reconhecimento das vias de controle da motricidade e não apenas ter conhecimento do sistema músculo articular.

A prática do alongamento é bastante controversa para prevenção de lesões. O alongamento passivo se executado indevidamente pode estressar as estruturas ligamentares, descalibrar os receptores sensoriais presentes na musculatura e ainda gerar instabilidades e lesões.

Estudos apontam que alongamentos ativos, por acionarem os mecanismos voluntários de controle motor, tem demonstrado um efeito salutar para o preparo das vias neuromusculares e conseguinte melhoria no desempenho motor.  

No entanto, deve-se sempre solicitar auxílio profissional para adequação específica de qual aquecimento configura-se mais efetivo para a demanda energética que será exigida. Quanto maior a especificidade na seleção do aquecimento apropriado, mais efetivo para prevenir dores e lesões, e ainda, melhorar o desempenho esportivo.

Esta informação é fornecida como serviço educacional e não se destina a servir como aconselhamento médico. Qualquer pessoa que procure aconselhamento ortopédico específico ou assistência deve consultar um médico ortopedista.

About the author

Adriana Halbe

Adriana Halbe

Fisioterapeuta graduada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Especialização em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento pelo CECAFI - Centro de Estudos em Ciência da Atividade Física da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Especialização e pós-graduação em Acupuntura e Eletroacupuntura pelo Colégio Brasileiro de Acupuntura e Medicina Chinesa (CBA), São Paulo em parceria com a Universidade São Judas Tadeu. Estudos continuados com Giovanni Maciocia, California Acupuncture Board, NCCAOM.
site: www.ahalbe.com.br
Instagram: @adrihalbe

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